Márcio Alaor de Araújo explica o passo a passo para preparar sucessor sem acender disputa de poder na empresa

Diego Velázquez
Márcio Alaor de Araújo

Toda sucessão mal conduzida deixa a mesma marca: mais de um candidato interno percebe, tarde demais, que estava competindo sem saber as regras do jogo. Márcio Alaor de Araújo, executivo do mercado financeiro com foco em resultados e desenvolvimento organizacional, avalia que a disputa de poder raramente nasce da ambição dos candidatos, mas nasce da ausência de critério visível sobre como a escolha será feita. Sem critério declarado, cada candidato cria a própria teoria sobre o que conta, e essas teorias entram em choque.

Preparar sucessor exige, antes de qualquer treinamento técnico, um desenho claro do processo que vai levar até a escolha. Esse desenho tem etapas que se sustentam uma na outra. Pular qualquer uma delas costuma ser exatamente o ponto em que a disputa deixa de ser saudável e vira desgaste institucional.

Defina o critério de escolha antes de apontar qualquer candidato

O primeiro passo é declarar, por escrito e para o grupo relevante, quais critérios vão pesar na decisão final: resultado entregue, capacidade de formar time, leitura estratégica, resiliência sob pressão. Sem essa etapa, cada observador da disputa aplica seu próprio critério informal, e o processo parece arbitrário mesmo quando não é. Como Márcio Alaor de Araújo evidencia, a maior fonte de ressentimento numa sucessão não é perder, é perder sem entender por qual régua.

Esse critério precisa ser divulgado antes de qualquer favoritismo aparecer, não depois. Divulgar depois de já existir um favorito nas conversas de corredor tem o efeito contrário ao pretendido: parece justificativa retroativa, mesmo quando o critério é genuíno e foi definido com cuidado.

Separe avaliação de promessa

O segundo passo é garantir que nenhum candidato receba sinal de vitória antes da decisão estar formalmente fechada. Comentário informal de que “a vaga já tem dono” circula rápido e produz dois efeitos ruins: quem acha que já ganhou relaxa a entrega, e quem acha que já perdeu para de se esforçar ou começa a minar o favorito. Manter avaliação aberta até o fim evita os dois problemas ao mesmo tempo.

Márcio Alaor de Araújo
Márcio Alaor de Araújo

Isso não significa fingir neutralidade que não existe. Significa não confirmar preferência em conversa privada enquanto o processo formal ainda está em curso, porque essa confirmação, mesmo bem-intencionada, já decide o clima competitivo antes da hora certa.

Dê aos candidatos responsabilidade real, não apenas visibilidade

O terceiro passo é testar cada candidato em decisão de peso real, não em tarefa simbólica criada só para observação. Colocar um candidato à frente de um projeto que realmente importa revela como ele decide sob risco genuíno, algo que nenhuma dinâmica de treinamento reproduz com fidelidade. Nesse ponto, a sucessão testada em cenário artificial tende a escolher quem performa bem sob observação, não quem decide bem sob consequência real.

O empresário com foco em resultados e desenvolvimento organizacional, Márcio Alaor de Araújo, menciona que esse teste também tem efeito colateral positivo: reduz a percepção de favoritismo, porque o resultado fica visível para todos, não depende da interpretação de quem está avaliando de fora.

Comunique a decisão com transparência sobre o motivo, não só o resultado

O quarto passo, frequentemente ignorado, é explicar o motivo da escolha para quem não foi escolhido, e não apenas anunciar o vencedor. Quando o motivo fica implícito, quem perdeu preenche a lacuna com a explicação mais desconfortável possível, geralmente alguma forma de favoritismo pessoal. Explicar o critério aplicado, ainda que de forma resumida, fecha essa lacuna antes que ela se transforme em narrativa interna difícil de desfazer.

Essa conversa também define se o candidato não escolhido permanece engajado ou começa a se desligar emocionalmente da empresa. Uma explicação honesta, ainda que difícil de ouvir, tende a preservar mais a relação do que o silêncio.

Assim, a sucessão vira exemplo, não motivo de saída

O quinto passo é o resultado dos quatro anteriores bem executados: transformar a experiência de quem não foi escolhido em capital de confiança para próximas rodadas, não em motivo de saída silenciosa. Márcio Alaor de Araújo reflete que empresas que fazem essa transição bem quase sempre repetiram o mesmo processo estruturado mais de uma vez, porque a confiança no critério se constrói com repetição, não com uma única sucessão bem-sucedida isolada.

Esse é o verdadeiro teste de maturidade de uma sucessão: não apenas escolher a pessoa certa, mas garantir que quem não foi escolhido continue vendo valor em ficar, porque entendeu como e por que a decisão foi tomada.

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